De vez em quando, gostamos de falar sério. E há algum tempo, venho pensando a respeito disso e juntando argumentos. E um texto que li no fim do ano me fez pensar e ter vontade de colocar o assunto em pauta. Mas daquele jeito, sabe? Coisas do Asterisco.
Esses tempos, li um texto sobre as bancadas de partidos cristãos no congresso. O número é considerável, ainda mais no senado. São nove senadores de partidos ligados a igrejas no país. E, senadores, assim como deputados, aprovam ou vetam leis. Do mesmo modo, as igrejas evangélicas se multiplicam aos montes e contam com um grande departamento de comunicação (jornais, páginas em redes sociais, gravadoras, festivais de música, programas de TV).
A minha opinião em relação às igrejas – tanto as evangélicas como as demais – é muito clara. Creio que as pessoas têm o direito de acreditar e seguir a religião/doutrina/filosofia que bem entenderem. Não concordo com os ritos, nem com os dogmas evangélicos, pois os acho desprovidos de fundamentos que os justifiquem. Entretanto, se os fiéis se sentem felizes e confortáveis dentro dessa realidade, que sigam e sejam felizes.
Muitas pessoas encontram na religião um refúgio, algo em que acreditar. E esse papel da religião é sem dúvida muito importante. O que tem me incomodado profundamente nessa popularização das igrejas evangélicas – da mesma maneira que eu tenho o pé atrás com a antiga “predominância” da igreja católica – é a capacidade que os líderes religiosos têm de se infiltrar nos órgãos de governo (partidos evangélicos e cristãos) e decidir – segundo os dogmas da religião – sobre assuntos comuns a toda a população. População essa que possui várias religiões diferentes ou mesmo nenhuma.
Usar Deus para promover ideias ou justificar argumentos tem ainda um apelo muito forte. E - é óbvio que eu vou puxar a brasa para o meu lado - uma dos assuntos preferidos dos partidos cristãos são os relacionados à união de pessoas do mesmo sexo. Baseados em seus dogmas – que retiram de um livro escrito por homens, que nada mais eram do que homens, humanos como eu e você – os políticos de partidos cristãos querem governar para seus fieis. Ainda não consigo desvendar bem o que está por trás disso, fanatismo religioso, sistema totalitário ou pura e simplesmente a vontade de dominar o sistema com cifras que aumentam assim como o número de fieis.
Direito de serem “contra” a união de pessoas do mesmo sexo qualquer um pode ter. As igrejas inclusive. E ficar discutindo se é certo ou errado só nos leva a uma discussão interminável. Entretanto, um estado que se preze, um país que se preze, uma sociedade que queira funcionar de fato deve – sim – separar governo de religião. Ou me parece que voltamos para a idade média, onde os padres davam fé nas decisões dos reis. Da mesma forma, as bancadas cristãs, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, tentam impor aos habitantes do país as leis que lhes são convenientes. E, nesse caso, a “perseguição” aos homossexuais é a atividade preferida, e muito bem justificada sob o argumento de que “Deus não quer”.
O que eu posso fazer em relação a isso? Não votar nos partidos ditos “cristãos”. Entretanto, homofóbicos estão em todos os partidos, não apenas nos declaradamente ligados a grupos religiosos. Então, o buraco é muito mais embaixo – pro mais clichê que essa frase possa ser. Porque o lance não é uma guerra contra as igrejas ou contra os fiéis. Não se trata de dividir o mundo entre crentes e não-crentes no cristianismo. Conheço muitos evangélicos e muitos deles sabem da minha orientação sexual e – ao menos na minha presença – me respeitam como ser humano que sou. E eu da mesma forma respeito a fé de cada um.
O problema são os pastores-deputados no congresso, o problema é misturar religião com política. Porque os fiéis estão lá ingenuamente buscando um conforto – e acredito que muitos pastores também tenham boa intenção. Em um trocadilho muito infame, poderia dizer que o “baixo-clero” das igrejas evangélicas, apesar de disseminar ideias do “alto-clero” me preocupa menos do que os que estão por trás do grande sistema.
Sempre me preocupo muito mais com quem cria as ideias do que com quem as dissemina. As pequenas igrejas que se multiplicam por aí nada mais fazem do repetir um discurso quem vem de quem está acima delas. E são esses líderes religiosos que tornam as coisas perigosas. Quem está comandando este sistema todo, quem cria o discurso em nome de Deus, quem é dono dos meios de comunicação, quem usa desse mesmo discurso para ser eleito e para posteriormente vetar ou aprovar leis.
Esses grandões, amiguinhos. São com esses grandões que temos de tomar cuidado. Não é a sua vizinha ou a sua prima evangélica que dificulta a vida de homossexuais – porque ou elas podem te aceitar dessa forma, ou elas podem apenas, quando muito, disseminar um discurso que você já sabe ser infundado, baseado em simples dogmas. Quem dificulta a minha, a sua e a nossa vida – de nós que somos homossexuais e lutamos simplesmente por nossos direitos – são os que estão no poder, no congresso e no senado, sob argumentos baseados em dogmas religiosos, assumidamente cristãos ou não.
Então, todo esse texto enorme – que ficou quase do tamanho da bíblia – é para justificar por que o Asterisco e eu somos a favor do estado laico. Urgente. Pra ontem. E isso não quer dizer que eu não acredite em Deus, porque acredito que exista sim uma força maior que nos protege. Entretanto, não é esse mesmo Deus usado por fundamentalistas para justificar ideias que só existem nas suas cabeças. Amém.
3 comentários:
Tirei o chapéu, Amandinha! Enquanto tiver minoria vulnerável, sempre terão algozes para massacrá-las. Foi assim com as bruxas (que na verdade eram médiuns), mulheres, negros e agora homossexuais. Infelizmente, como eu digo, a sociedade é podre e muito influenciável, são poucos os fortes de personalidade que se salvam.
Podes crer. Isso tem me preocupado, sabe? Porque junto a isso, está crescendo o número de ateus (ou pelo menos agora os ateus estão se assumindo mais). Então, essa onda de moralismo religioso está afastando as pessoas inclusive de Deus (eu ainda acredito nele, no meu Deus que não é o mesmo das igrejas). Moralismo cristão/religioso só atrasa nossa civilização quando se junta à política. Estado laico já!
Gostei do seu texto e concordo que essa intolerância religiosa está afastando os jovens de Deus. Parabéns pelo seu blog! Abraços!
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